"Mim Ê Bô" - o regresso de Tito Paris aos discos

2017-07-12
Fonte: TSF
Foto por: Fnac

 

Depois de uma ausência discográfica, em nome próprio, de quinze anos, o cantor e compositor cabo-verdiano Tito Paris voltou aos estúdios para gravar um disco que foi editado no passado dia 23 de junho.
Ausente dos discos de originais desde a edição, em 2002, de "Guilhermina", Tito Paris reaparece agora com "Mim Ê Bô", um trabalho feito sem pressas e, talvez por isso mesmo, com um notável resultado final de completo amadurecimento.
Ao longo deste hiato de quinze anos, houve muito mundo percorrido por Tito Paris, sempre com a lusofonia numa mão e o crioulo genético de São Vicente na outra. Para trás - e para a história - ficam os primeiros passos na música aos sete anos com os ensinamentos da guitarra bebidos da irmã (uma dos nove irmãos na família), as escapadelas à revelia materna para as tocatinas e serenatas, o primeiro grupo aos doze anos, o circuito de bares de Cabo Verde e a avidez com que aprendia os ensinamentos de mestres como o pianista Chico Serra ou o clarinetista Luís Morais.
Multi-instrumentista, Tito Paris fez parte, como músico e arranjador, da banda de suporte de Cesária Évora, para quem compôs "Regresso", um tema integrado num dos primeiros discos da "Diva dos Pés Descalços" e que, mais tarde, Cize voltaria a gravar em dueto com Caetano Veloso.
Primo de Bau (o mestre do cavaquinho de Cabo Verde que também viria a ser director musical de Cesária), Tito Paris partiu para Lisboa aos 19 anos a convite de Bana, o embaixador da música cabo-verdiana então residente em Portugal. Corria o ano de 1982 e, no dia 12 de Julho, Tito Paris desembarcou no aeroporto da Portela com uma mala carregada de sonhos e talento. Era o início de uma carreira discreta mas brilhante, começada na banda de suporte de Bana (a "Voz de Cabo Verde") onde passou pela bateria e pelo baixo, antes de abandonar o grupo e iniciar uma carreira a solo, centralizada então na guitarra por sugestão de Dany Silva, outro histórico da diáspora musical cabo-verdiana em Portugal, e um dos muitos nomes com quem Tito Paris tocou.
Começando a cantar apenas em 1986 (curiosamente, em Amesterdão), Tito Paris editou um ano mais tarde o disco de estreia em nome próprio - "Fidjo Maguado" - o primeiro duma série que teve "Dança Ma Mi Crioula" em 1994; "Graça di Tchega" em 1996; "Ao Vivo no B.Leza" em 1998; "27/07/1990 - Ao Vivo" em 2001 e "Guilhermina", em 2002, não sendo aqui contabilizadas as prestações em discos de nomes maiores da música portuguesa como Mariza, Paulo de Carvalho, Sérgio Godinho ou Vitorino, entre outros, sendo ainda de referir a assinatura da banda sonora do filme de Francisco Manso "O Testamento do Senhor Nepumoceno" (de 1997)
Músico e compositor orgulhoso da sua herança musical, Tito Paris tem nas mornas, nas coladeiras e no funaná, a base de trabalho que, no entanto, não o espartilham, sendo quase uma imagem de marca a abordagens e roupagens a outros universos sonoros e culturais.
Neste novo disco - "Mim ê Bô" - Tito Paris aparece com a lusófona responsabilidade acrescida pela recente atribuição pela República Portuguesa do grau de Comendador da Ordem de Mérito, um merecido galardão para quem, ao longo de 35 anos de carreira com Portugal como base, tem levado a Lusofonia aos quatro cantos do Mundo. Em "Mim Ê Bô", Tito Paris leva-nos em viagem pelos sons e sabores de Cabo Verde tendo como convidados Bana (com quem gravou "Resposta de Segredo Cu Mar" pouco antes do falecimento do patriarca da música do arquipélago), Boss AC (filho da cantora Ana Firmino e um dos bons exemplos da segunda geração de filhos da diáspora musical cabo-verdiana, com quem faz dueto em "Bô") e o brasileiro Zeca Baleiro, o cantor do Maranhão que acentua o pendor lusófono deste novo disco de Tito Paris em "Santiago Amor".
Com dois concertos em salas emblemáticas apontados para o final deste ano de 2017, Tito Paris promete não estar ausente dos discos mais quinze anos até porque já existe material para um novo álbum. Mas antes disso, há que deixar este "Mim Ê Bô" respirar e pisar palcos um pouco por todo o mundo, como vai acontecer nos meses mais próximos.

Junho 2017

 

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