O trabalho é onde a pessoa quiser

2020-10-11
Fonte: Expresso
Foto por: Julia M Cameron no Pexels

Nunca se ouviu falar tanto em teletrabalho como agora e a explicação é simples. Grande parte da população experimentou este conceito pela primeira vez nos últimos meses. “É uma ferramenta muito importante”, garante Pedro Lacerda, CEO da Kelly Services Portugal e Benelux. “Para ambos os lados [gestores e colaboradores] é um conceito que deixa de ser um mito, como era antigamente.”

A mudança enquadra-se na transição digital em que muitas empresas se encontram e que coloca vários desafios de implementação e de adaptação. 89% dos inquiridos na sondagem nacional do Expresso «Novos Desafios Digitais, a Gestão das PME» — feita em parceria com a PHC, num estudo realizado pela GfK — acreditam que a mobilidade das equipas é uma tendência desta nova era, enquanto 22% receiam não ter pessoas capacitadas para usar as ferramentas digitais, que ganham cada vez mais relevância.
Esta questão da pandemia veio acelerar em anos esta transição digital. Ainda estamos no início”, atira Carlos Maia. Para o Diretor Regional da Hays Portugal, tentamos “perceber como introduzir tecnologia e como funcionar neste modelo híbrido de trabalho que entrou pelas nossas casas”, com os empregadores a “testarem alguns modelos e a descobrirem os que se adequam”. 24% receiam ficar desatualizados face à mudança do mercado e os riscos de gestão são sentidos por todos. Por isso, a palavra ‘competências’ é tantas vezes repetida e os intervenientes sentem que preparar as estruturas empresariais para aproveitar da melhor forma as novas ferramentas de trabalho é tão ou mais importante para o seu sucesso do que a implementação propriamente dita.
2020 tem sido uma espécie de “lição forçada” naquilo que se entende por produtividade, aponta o administrador do Grupo Egor, Afonso Carvalho. Antes, “gostávamos de fazer reuniões demoradas, sem agenda”, presencialmente, e agora, “com esta tipologia híbrida de reuniões, as pessoas conseguem ser mais pragmáticas e as reuniões são mais curtas, mais produtivas”, exemplifica. “Muitas pessoas aproveitaram esta altura para atualizarem certas competências”, refere, apesar de ser preciso desenvolver uma base mais sustentada para que este despertar, resultante da necessidade, não se esfume. Por vezes, há “memória curta e esquecemo-nos das lições positivas que podemos tirar deste contexto. Temos de apostar em formação e exigir formação para conseguirmos estar atualizados. Espero que não se volte atrás”, pede.

Produtividade
A transição ganha mais força numa altura em que o mercado vive uma “situação de vulnerabilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade”, resume Pedro Lacerda, e as empresas procuram lidar da melhor forma com uma realidade em constante mutação. Impõe-se a “obrigação de dar competências, treino e formação aos trabalhadores”, para que se “sintam habilitados e com ferramentas para executar”. Em Portugal encontra-se “muita gente com iliteracia digital”, o que pede uma “ação imediata”, e o diretor destaca os esforços nesse sentido, de que o acordo assinado esta semana entre o Governo e a Google para agilizar a transição digital é exemplo. Relativamente ao teletrabalho, as informações mostram que a produtividade pode ser “no mínimo igual ou superior” à que se regista no posto de trabalho, e os dados mostram que a realidade já aponta para esse caminho.
No campo dos recursos humanos, “competência a mais nunca é demais”, considera Afonso Carvalho, que alerta para os “modelos de gestão mais antiquados”, que “penalizam este avanço”, sob o efeito de “líderes que não trabalham sem ver as pessoas”. Claro que os desafios do teletrabalho continuam bem presentes e Carlos Maia revela que um estudo recente da Hays Portugal mostra que “30% dos profissionais” indicam que a sua saúde mental piorou. A socialização deve sempre ser tida em conta e, numa fase de mudanças tão repentinas, não podemos perder o toque humano no meio da tecnologia. Sem dramatizar, até porque “não é a primeira revolução tecnológica a que o mundo do trabalho está a assistir”, acredita Carlos Maia. “Mais desafiante será formar toda uma geração de profissionais para a nova realidade.”

Outubro 2020

 

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