Angola: “São necessárias infraestruturas para a migração digital”

2020-06-07
Fonte: Jornal de Angola
Foto por: Canva Studio no Pexels

Além de incentivos ao investimento nas zonas mais remotas, a partilha de infraestruturas resultaria em menores investimentos e na possibilidade da aplicação de recursos financeiros em outras zonas menos apetecíveis. Hoje, celebra-se o Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação e o Jornal de Angola entrevistou o engenheiro Francisco Pinto Leite.

Numa altura em que se celebra o Dia Internacional das Telecomunicações e Comunicação, como avalia a Revolução Digital em Angola?
São evidentes alguns avanços no sentido da Digitalização em Angola. Por exemplo, existe uma estratégia do Governo para a digitalização, descrita no Livro Branco das Telecomunicações e Tecnologias de Informação e tem-se produzido bastante legislação sobre o assunto. Nos últimos 16 anos, vários investimentos públicos e privados foram feitos, no sentido da implementação de infraestruturas tecnológicas de suporte à digitalização. Na minha modesta opinião, os resultados desses investimentos ficaram bastante aquém do inicialmente esperado. Quero com isso dizer que ainda existe um grande desafio no que diz respeito à disponibilização de serviços em toda a extensão de Angola, que permitam a integração digital da nossa sociedade.

É certo que a digitalização não está apenas ligada à tecnologias?
Está também ligada ao nível de literacia digital da sociedade em geral, no sentido da aceitação das mudanças do paradigma funcional das organizações e de vida das pessoas, assim como a compreensão da operação das tecnologias e dos processos.

Que avanços foram registados?
Ainda existe muito trabalho a fazer, no que diz respeito à educação da sociedade para a digitalização. Apesar dos constrangimentos acima referidos, alguns avanços são evidentes, onde se destacam, por exemplo, a digitalização dos serviços bancários, a disponibilização de serviços de táxis e entregas ao domicílio, vendas “online” e mais recentemente, derivado a crise de Covid-19, os serviços de teleconferência e de tele-ensino. Também, gostaria de destacar a disponibilização de alguns aplicativos desenvolvidos por pequenos empreendedores angolanos e que já estão disponíveis ao público.

Que aportes as TIC podem dar para o desenvolvimento socioeconómico do país?
As TIC são fundamentais para o desenvolvimento de qualquer país. A atual globalização dos mercados impõe melhorias constantes na eficiência e eficácia dos sistemas de produção de produtos e serviços, por via da otimização dos processos produtivos. A consequência da otimização desses processos é a melhoria da relação preço/qualidade dos produtos e serviços e, consequentemente, o alavancar da possibilidade competitiva dos mesmos.

Que desvantagem traz o atraso na incorporação das TIC no desenvolvimento nacional?
O atraso na implementação das TIC tem como consequência direta a menor capacidade competitiva nos mercados que são cada vez mais globais. Por exemplo, no sector do Turismo é imperativo o uso das TIC na divulgação (marketing), reservas e segurança dos turistas. Outro risco do atraso na implementação, é sobre a própria soberania do Estado. O fraco nível de implementação das TIC torna vulnerável o asseguramento de informação classificada de cada país.

A implementação das TIC requer infraestruturas de base. Acha que já estamos bem servidos?
Angola deveria já ter uma infraestrutura base mais abrangente e fiável do que atualmente tem, se considerarmos os investimentos feitos nos últimos 16 anos. Por razões várias, uma parte substancial dos projetos resultantes desses investimentos não estão operacionais ou operam de forma muito deficiente. Como resultado, Angola tem apenas um operador de rede móvel, cuja infraestrutura de base pode ser considerada de abrangência nacional. Todos os outros operadores continuam a requerer bastantes investimentos, para reconstruirem ou construírem as suas redes. Em resumo, a implementação de infraestruturas de base que sirvam de suporte às TIC em Angola ainda necessitam de investimentos de algum vulto.

É verdade que o país está “litoralizado”, com a disponibilização de serviços no interior abaixo dos padrões que as TIC exigem?
É evidente que o litoral do país é a zona com cobertura mais abrangente, com melhor qualidade e com mais serviços disponíveis. Isto tudo tem a ver com o mercado no litoral. Não existe incentivos para os operadores privados investirem em zonas do país com baixa viabilidade económica. Além de incentivos ao investimento nas zonas mais remotas, a aplicação de facto da partilha de infraestruturas resultaria em menores investimentos e, consequentemente, na possibilidade da aplicação de recursos financeiros em outras zonas menos apetecíveis, do ponto de vista económico. Do ponto de vista técnico, a partilha também proporcionaria a construção de anéis nacionais que melhorariam a qualidade dos serviços.

O que se espera da 4.ª “Revolução Industrial”, designada 4.0?
Vejo-a como uma oportunidade dos países menos desenvolvidos diminuírem o fosso em relação ao chamado 1º Mundo, por via da utilização da tecnologia. Porém, importa desde já haver estratégias claras e realizáveis para a construção de infraestruturas de suporte aos sistemas tecnológicos da revolução 4.0.

Os investimentos feitos no sector satisfazem?
Em termos de volume, acho que Angola, no campo público e privado), fez nos últimos 16 anos investimentos que deviam ter resultado numa maior abrangência em termos de cobertura de serviços, melhor qualidade e melhor preço.

Foi feito investimento na Angosat e na rede nacional de fibra ótica...
Diferentes vozes defendem diferentes visões. Na minha opinião, existem outras prioridades de investimento a frente do investimento com o Angosat.

Que caminhos a seguir para Angola apanhar o comboio da 4.ª Revolução?
Muito terá que ser feito, começando pela base. Refiro-me à necessidade de incentivos ao investimento na melhoria da infraestrutura, em termos de qualidade e expansão, e criação de uma “elite” científica angolana, ligada às universidades.

O que fazer, para capacitar as pessoas de modo a desenvolverem, manterem e utilizarem as novas tecnologias?
Neste aspeto, deve-se investir, primariamente, na formação de “elites científicas” (ligadas às universidades) que servirão de suporte local para o desenvolvimento e disseminação das redes e plataformas tecnológicas. Estas redes servirão, futuramente, de base para a formação massiva e de qualidade das populações, independentemente da sua localização.

Qual é a sua importância para o sector produtivo?
A melhoria da eficiência e eficácia dos processos produtivos, resultando na melhoria da produtividade.

Como as TIC ajudam na diversificação da economia?
A importância das TIC na diversificação da economia começa na possibilidade de formação das pessoas, nas mais variadas áreas do saber. As TIC trazem consigo uma série de novos serviços, como, por exemplo, as redes de táxis. O paradigma dos serviços, da produção industrial e agrícola mudou radicalmente com a introdução das TIC. Nenhuma dessas áreas pode ser desenvolvida sem o uso das TIC, sob pena da sua inviabilidade.
As TIC concorrem muito para o crescimento.

Onde se deve centrar o pilar da nova estratégia para as TIC em Angola?
Angola devia ambicionar implementar uma rede com qualidade, baseada nos padrões internacionais, com cobertura nacional, integrada na região da SADC, com capacidade de armazenamento local de dados, visando tornar Angola numa “HUB” de dados em África e garantindo a soberania dos nossos dados.

O que dizer sobre a regulamentação e início da implementação prática no Decreto Presidencial n.º 166/14? Que vantagens e desvantagens?
A intenção que levou ao referido regulamento é bastante nobre, se nos atermos às questões estéticas nas infraestruturas nos espaços públicos. A visão do Governo foi catalisar a expansão de redes, evitando sobreposição das mesmas em determinados traçados, em detrimento de outros e, também, otimizando os investimentos dos operadores. Porém, o referido regulamento carece de algumas melhorias, do ponto de vista da aplicação prática. Em alguns aspetos, parece-me algo vago, o que leva a diferentes interpretações. De qualquer das formas, é de louvar a intenção do Governo, por via do regulador, um aspeto que até então não tinha qualquer suporte legal. Igualmente, aproveito a oportunidade para, publicamente, parabenizar o INACOM (Instituto Angolano de Comunicações) pelo envolvimento de todos os intervenientes do ecossistema das TIC na melhoria do sistema de partilhas, através do comité de partilha (INFRACOM).

O Governo publicou a sua visão e as principais estratégias para o desenvolvimento das TIC. Que comentários se lhe oferece fazer?
A estratégia do Governo expressa no Livro Branco das TIC reflete (ou refletia) uma visão do posicionamento de Angola no contexto africano. Este plano estratégico (pelo menos o que conheço) continha uma série de etapas, muitas das quais não foram bem-sucedidas, tal como a reabilitação da infraestrutura de base da TIC já referenciados. Outras, como a liberalização e regulamentação do sector, foram e continuam a ser, de algum modo, implementadas com sucesso. Entretanto, parece-me necessário a revisão do plano estratégico, tendo como base a realidade atual das TIC em Angola, assim como da própria economia.

Maio 2020
 

Bookmark and Share