2020 será o ano em que a inteligência artificial terá ampla adoção, diz pesquisa

2020-01-13
Fonte: IPNews/ Sapo Tek
Foto por: Alex Knight from Pexels

Atualmente tem-se falado muito sobre inteligência artificial, mas como e quando a IA será amplamente adotada nos negócios ainda continua sendo a grande questão. Pelo menos até agora. De acordo com a nova pesquisa global da IBM sobre a adoção da IA, “Dos obstáculos à escala: a disparada global à IA” (From Roadblock to Scale: The Global Sprint to AI), a IA está crescendo rapidamente nos negócios, à medida que as barreiras à sua adoção vão diminuindo.

A pesquisa considerou respostas de 4.514 líderes de grandes organizações de diferentes países, não apenas para identificar a implantação global da IA, mas também para determinar o que a está impulsionando. Algumas conclusões foram:
• 3 em cada 4 empresas estão explorando ou implementando a IA: em todos os setores, os líderes empresariais já implantaram a IA (34%) ou estão evoluindo as fases exploratórias com a IA (39%).
• Conhecimento, dados e ferramentas representam os maiores obstáculos: 37% dos entrevistados citaram o conhecimento ou a experiência limitada em IA como um obstáculo para a adoção bem-sucedida de IA em seus negócios, seguido pela crescente complexidade e silos de dados (31%) e a falta de ferramentas para o desenvolvimento de modelos de IA (26 %).
• A confiança é o fator mais crítico para a implementação de IA: globalmente, 78% dos entrevistados em todos os países pesquisados disseram que é ‘muito’ ou ‘criticamente importante’ que eles possam confiar que seus modelos de IA sejam construídos de forma justa, segura e confiável.

2010-2019: as duas faces da inteligência artificial. Como pode esta ajudar a humanidade? E os seus perigos?
Já se apregoa há algum tempo o advento da inteligência artificial e quão esta pode ser fantástica para a sociedade, mas simultaneamente terrível se for utilizada de forma pouco consciente. Mas a IA já se encontra entre nós, de forma mais ou menos evidente, de forma útil ou experimental, e embora não tenhamos de nos preocupar com as “exterminadores da Skynet”, é preciso garantir que a sua utilização responsável continue a servir o ser humano nas áreas onde seja possível.
Olhando para a última década, o SAPO TEK procurou, junto da Associação Portuguesa Para a Inteligência Artificial (APPIA), conhecer quais os principais passos dados no desenvolvimento e aplicação de IA na última década, perguntas respondidas por Paulo Novais, Professor Catedrático da Escola de Engenharia da Universidade do Minho e Presidente cessante da APPIA, e Luís Paulo Reis, Professor Associado da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Diretor do LIACC/UP e Presidente eleito da Associação.
Segundo os professores, “os passos mais importantes estão relacionados com o enorme incremento na quantidade (e qualidade) de dados disponíveis e com enorme incremento da capacidade de processamento para utilização e treino de algoritmos de IA”. Destacam sobretudo o desenvolvimento de novos algoritmos para a utilização desses dados e capacidade de processamento utilizando machine learning. O deep learning também foi salientado como sendo capaz de resolver problemas, de forma distinta, mas melhor que os humanos “mesmo em domínios onde se considerava que a Inteligência Humana seria insuperável”, referem, dando como exemplos jogos complexos como o Go ou compreender e traduzir discursos em tempo real.
Relativamente ao ano que encerrou, a IA teve um enorme crescimento, segundo os líderes da APPIA, já que “suscitou a atenção de quase todas as empresas mundiais e governos internacionais que começam a usar em grande escala em todos os seus serviços e produtos”. Foi ainda destacado o fortalecimento e surgimento de novas empresas ligadas à área, sobretudo ao nível de Startups.
Duas áreas que a IA está a revolucionar são os Serviços Financeiros e a Saúde, referem os professores, em que milhares de cientistas internacionais ligados à inteligência artificial foram contratados “com salários de topo” pelas grandes empresas mundiais nessas áreas, realçam. Relativamente à Saúde, os especialistas destacam que 2019 foi um ano em que os sistemas baseados em IA se tornaram decisivos, com o grande incremento nos sistemas inteligentes que ajudaram a aperfeiçoar análises, diagnósticos e recomendações de tratamentos.
Os sistemas biométricos de autenticação estão cada vez mais desenvolvidos, como o reconhecimento facial e as impressões digitais, que estão a ser utilizados por fintechs, por exemplo, para dar acesso às contas dos utilizadores. Essa revolução aconteceu em 2011, com a primeira aplicação de home banking, que desde então se tornou comum a todas as instituições bancárias.
Embora de uma forma positiva, ou mais cética, a IA tem sido encarada como uma moeda de duas faces…

Para combater a face negativa da IA é necessário a criação de normas para uma utilização responsável
Embora exista o grupo mais cético que acredita que a IA vai retirar muitos empregos, sobretudo em áreas onde as tarefas são repetitivas, outros defendem que invés de “roubar”, vai criar novas oportunidades de emprego, sustentado na experiência das revoluções industriais anteriores, as máquinas permitiram ajudar sem deixar ninguém sem trabalho. E foi nesse sentido que a União Europeia apresentou um documento com recomendações para legislar a IA na Europa. A imparcialidade, transparência, futuro do trabalho, democracia, assim como a privacidade e proteção dos dados sociais são algumas das suas diretrizes. Ao todo, são “sete mandamentos” para que a ética seja considerada e a IA seja utilizada com confiança.
Ainda dentro deste capítulo, 2019 viu a Google reconhecer a importância de criar um conselho externo de vigilância, para garantir a utilização responsável da IA, preocupada sobretudo com a forma como os algoritmos eram utilizados no reconhecimento facial, para serem mais justos e responsáveis. No entanto, devido às nomeações controversas para os órgãos do conselho, desde o primeiro dia que ninguém se entendeu, e acabou por ser descartada a ideia, levando a Google a afirmar que vai procurar opiniões externas sobre o assunto de outra forma.
O Facebook também decidiu investir em centro de investigação independente para a ética na IA, procurando compreender o impacto que esta vai ter na vida das pessoas. A instituição foi criada na Alemanha e vai ser apoiada pela rede social nos próximos cinco anos. Há ainda um consórcio de 40 empresas, das quais a Google e Facebook fazem parte, para a criação de um benchmark de avaliação para inteligência artificial, convidando todos, até as empresas mais pequenas a utilizá-la nas suas necessidades e melhores práticas.
Mais negativo está o filósofo e professor da Universidade de Oxford, Nick Bostrom, que considera que a IA é um perigo maior e imediato para a humanidade, do que as próprias alterações climáticas. O filósofo reconhece que a tecnologia pode ajudar a humanidade, mas considera o lado oposto. Que venha a ser de tal forma eficiente, que comece a levar os cenários ao extremo para o qual foi concebida. Aqui sim, parece um cenário onde só falta entrar um tal de Schwarzenegger a dizer “I’m back”. E foi para este tipo de pensamento que durante o Web Summit, Cassie Kozyrkov, chief decision scientist da Google, pediu para as pessoas não se distraírem com a ficção científica, referindo que os problemas da IA são “culpa dos humanos”.

Janeiro 2020

 

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