A Inteligência Artificial nos Media: quando um computador escreve notícias ou faz novelas

2018-09-07
Fonte: Selfie/ Nuno Fonseca | Diretor de Tecnologias da Media Capital Digital
Foto por: Pexels/ Negative Space

"I'm sorry Dave, I'm afraid I can't do that" - a resposta negativa do computador inteligente HAL ao humano, no filme “2001 Odisseia no Espaço” (1968) recorda-nos um passado, não muito distante, onde a inteligência artificial (IA) fazia parte da ficção.

A inteligência artificial (IA) é, hoje, uma realidade em vários setores, ainda estamos nos primeiros passos da tecnologia, mas todos os dias são notícia carros que se conduzem autonomamente ou robots que desempenham várias tarefas. Os media não são exceção e a IA, ainda que de forma discreta, já faz parte do seu dia-a-dia. Uma das utilizações mais generalizadas são os algoritmos de recomendação de conteúdos em sites e apps que, com base na análise do histórico de conteúdos consumidos pelo utilizador, entre outras variáveis, personalizam a recomendação de acordo com o perfil de cada um, tentando, deste modo, promover o consumo de mais conteúdos e aumentar a taxa de conversão. Esta tecnologia é, hoje, comum na publicidade apresentada ao utilizador ou em plataformas de compras online.
A capacidade de analisar grandes quantidades de informação num curto espaço de tempo leva a que esta tecnologia possa fazer parte do processo de produção, melhorando ou substituindo tarefas que humanamente requerem muito mais tempo, contribuindo para a eficiência das operações e fazendo com que esteja cada vez mais envolvida na produção dos próprios conteúdos.
Em 2016, o sistema cognitivo Watson, da IBM, criou o trailer do filme de terror Morgan. O sistema foi treinado para identificar os momentos chave de filmes de terror e selecionar que cenas deveriam integrar o trailer de um filme deste género. Em 24 horas, o Watson criou um trailer de seis minutos que teria levado semanas a ser elaborado por humanos.
No design, o gigante chinês Alibaba recorreu ao seu designer IA LuBan para criar banners milhares de vezes mais rapidamente do que um designer humano. No último ano, o LuBan criou 400 milhões de banners em um dia. Se considerarmos um tempo médio de 20 minutos para um designer humano criar um banner, seriam necessários 100 designers e 150 anos para produzir esta quantidade de banners.
Na animação os algoritmos de machine learning estão também a ter um papel central simulando, por exemplo, os movimentos naturais do corpo humano e a elasticidade da pele e conseguindo aumentar a eficiência da produção, reduzindo o tempo e custo tradicional dos VFX. Empresas como a Ziva Dynamics desenvolvem esta tecnologia que tem sido utilizada nas principais produções de animação.
Nas redações, a IA está também a dar passos. Em 2016, nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, o Washington Post estreou o Heliograf, o seu sistema de IA. O resultado foi cerca de 300 curtas notícias e alertas escritos pelo algoritmo. Desde então, o sistema tem sido utilizado noutros contextos onde se destacam cerca de 500 notícias publicadas sobre as eleições norte-americanas. Isto permitiu aumentar o número de artigos e publicar notícias que, de outra forma, não seriam publicadas, pois não lhes seriam dedicados jornalistas. Outro exemplo é o da AP - Associated Press que utiliza robôs para automatizar a cobertura da divulgação de resultados das empresas. Isto permitiu dedicar os jornalistas a trabalhos com maior valor acrescentado. A estimativa é de que tenha libertado 20% do tempo dedicado à divulgação de resultados das empresas e melhorado a precisão, reduzindo os erros, ao mesmo tempo que multiplicou por dez o número de empresas sobre as quais divulgou os resultados.
Em 2017, uma empresa japonesa, sem um único jornalista, deu que falar ao noticiar o assassinato do meio-irmão do líder norte-coreano meia hora antes de qualquer outro grupo de media japonês. A JX Press Corp é uma empresa de tecnologia que utiliza a IA para encontrar notícias de última hora nas redes sociais e emitir alertas. Os grandes grupos japoneses de média NHK, TV Asahi, ou Fuji Television tornaram-se clientes do serviço FastAlert da empresa.
Na produção de entretenimento, em Espanha, a Endemol utilizou a tecnologia de IA da Microsoft na produção do Big Brother para substituir a morosa e muito cansativa visualização contínua de imagens, de modo a que a produção possa conhecer o que de mais interessante se passa na casa. Através de machine learning, o sistema reconhece padrões de linguagem, palavras-chave e reações emocionais para identificar os momentos chave do que acontece na casa ao longo do dia.
Também no desporto, a IA está a ser utilizada para identificar as jogadas relevantes nas imagens. No torneio de ténis Wimbledon ou na Liga Americana de Futebol, a IA foi utilizada para avaliar cada jogada e, com base em várias variáveis, como os gestos dos jogadores ou o barulho do público, acelerar a produção de clipes com os momentos relevantes.
Na produção de novelas, existem experiências de utilização da IA na planificação da gravação de cenas, com o objetivo de maximizar a utilização de cenários, minimizar os tempos de espera dos atores ou reduzir o tempo de deslocação entre locais de gravação. Também na escrita, existem desenvolvimentos com o objetivo de melhorar e apoiar o trabalho dos guionistas. A empresa ScriptBook desenvolve tecnologia baseada em IA para analisar guiões sob várias perspetivas como o nível de violência, o fluxo e ritmo da história, entre outros.
À semelhança de outras indústrias, nos media, a IA veio para ficar e para fazer parte do dia-a-dia. À medida que a tecnologia vai evoluindo e as suas aplicações vão crescendo será notória a sua presença nas operações e também no produto final.

Agosto 2018

 

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