Angola Cables: Uma nova conexão Brasil-África

2019-05-07
Fonte: Isto é Dinheiro/ teletime
Foto por: Angola Cables

Quinta maior cidade do Brasil, Fortaleza é também um dos principais cartões postais do País. Das belas praias a pontos como o Mercado Central, o Theatro José de Alencar, o Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar e mesmo o Beach Park, na vizinha Aquiraz, não são poucos os passeios que atraem os turistas brasileiros e do exterior.

A capital cearense esconde, no entanto, outro “encanto”. Graças à privilegiada localização geográfica, o município se consolidou como um dos roteiros preferidos das companhias de cabos submarinos de fibra óptica, responsáveis por parte da transmissão de dados da internet. Com doze estruturas, Fortaleza é hoje o segundo maior centro global dessas redes, atrás apenas de Fujairah, nos Emirados Árabes. A Angola Cables, fruto de uma parceria entre as cinco maiores operadores angolanas, é uma das empresas do setor que escolheu navegar por essas águas - e que acaba de reforçar sua presença na região.
Depois de firmar uma parceria público-privada com a prefeitura local, a companhia inaugurou neste mês seu Data Center na cidade. Instalado na Praia do Futuro, em uma área de 3 mil m2, o centro de dados prevê outras quatro fases de expansão, dentro de um terreno que tem três vezes essa área. O projeto é parte de um investimento de mais de US$ 300 milhões da empresa. O montante comporta ainda dois cabos submarinos de fibra ótica, já em operação. Batizado de Monet, o primeiro deles tem mais de 10 mil quilômetros de extensão e interliga a Fortaleza, Santos e Miami (EUA), em uma parceria com o Google e a brasileira Algar Telecom. O segundo recebeu o nome de SACS e liga a capital cearense a Luanda, em Angola, por meio de uma rede de 6 mil quilômetros. “Com a estrutura, Fortaleza deixa de ser um ponto de passagem de telecomunicações para se ser um hub digital”, diz António Nunes, CEO da Angola Cables.
Uma das apostas por trás do aporte milionário é estabelecer uma rota alternativa de transmissão de dados. Atualmente, as conexões globais passam, necessariamente, pela América do Norte ou Europa. Nesse contexto, a estrutura construída pela Angola Cables abre caminho, por exemplo, para a ligação direta entre Brasil e mercados como África, Estados Unidos e, no futuro, Ásia. Há outros benefícios nessa trilha. “A chegada desses novos cabos está reduzindo o preço de transporte, o que acaba estimulando o crescimento da banda e da velocidade de internet no Brasil”, observa Eduardo Tude, Presidente da consultoria Teleco.
Último componente do projeto a entrar em operação, o datacenter permite que a Angola Cables explore outra vertente, com o auxílio dos dois cabos submarinos da companhia. Entre outras questões, esse pacote promete trazer ganhos consideráveis quanto à latência (nome técnico do tempo de resposta) das aplicações. Na prática, o carregamento de uma página na internet torna-se muito mais veloz. Segundo a empresa, o que o cabo entre Fortaleza e Luanda transporta em 63 milissegundos, gasta quase seis vezes mais tempo na transmissão via satélite: 360 milissegundos.
A partir dessa estrutura, o plano é tornar o datacenter de Fortaleza um polo de hospedagem e disseminação de conteúdos digitais. Na largada, o projeto já conta com clientes como Globo.com, Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e o próprio governo cearense. A estratégia é atrair desde provedores de internet e produtores de conteúdo até concorrentes da companhia em cabos submarinos. Entre os mercados no alvo dessa estratégia de usar o datacenter como um hub é a própria região Nordeste. O principal ponto, porém, é a exportação de conteúdos e serviços digitais para o continente africano, especialmente para os países de língua portuguesa. “Queremos ser essa ponte digital para promover negócios entre Brasil e África”, afirma Nunes. A Angola Cables já mantém conversações com desenvolvedores e produtores de conteúdo para concretizar esse plano.
Entre os exemplos em potencial está a área de saúde, com um aplicativo que monitora e prevê a incidência de epidemias, além de recursos de telemedicina. Já no setor de educação, uma possibilidade é uma plataforma de educação a distância com cursos gratuitos em segmentos como enfermagem e mecânica. O mercado de games também é apontado como extremamente promissor por Nunes. “A digitalização e as telecomunicações são uma grande oportunidade para reduzir a enorme distância entre a infraestrutura de mercados desenvolvidos e a de economias como Brasil e Angola”, afirma o executivo. “Se apanharmos essa onda que ainda está se formando, vamos fechar essa lacuna.”

Angola Cables quer ser um hub de operadoras
A Angola Cables inaugurou no passado dia 16 de abril, o seu datacenter Angonap em Fortaleza. O datacenter é parte do projeto da empresa no Brasil que compreende o cabo submarino SACS (ligando o país a Angola) e o Monet (do Brasil para os EUA), além do WACS, que liga a África à Europa. Mas a inauguração do datacenter marca também a estratégia de criar um centro para serviços e armazenamento de conteúdos e aplicações em Fortaleza. Segundo descreve André Martins, responsável comercial da Angola Cables no Brasil, trata-se de um datacenter neutro, que poderá ser utilizado por diversas operadoras, inclusive as empresas concorrentes da angolana no mercado de cabos submarinos.
Fortaleza tem mais oito rotas submarinas que chegam em suas praias e a Angola Cable está agora em processo de negociar com todas elas para criar um anel interconectando as estações de chegada ao seu datacenter. Além disso, a empresa não esconde o plano de ter um ponto de troca de tráfego com grandes, médias e pequenas operadoras na sua estrutura. Hoje o Ceará conta com cerca de 400 provedores locais e algumas das principais empresas regionais nasceram no Estado. As maiores já são parceiras da Angola Cables. A empresa também anunciou o acordo com a RNP para que um ponto de troca de tráfego entre instituições académicas no Brasil e na África fique baseado no Angonap.
André Martins diz que a aposta da empresa é que provedores de conteúdos e serviços queiram estabelecer suas bases de dados em Fortaleza para assegurar uma qualidade de atendimento e maior proximidade com o mercado do Nordeste do país ou para levar estes conteúdos ao exterior. "Hoje Fortaleza é um ponto de passagem de tráfego, e queremos que seja um ponto de presença", diz.
Segundo António Nunes, CEO da Angola Cables, inaugurando o datacenter "inicia-se a próxima etapa do projeto, que é ocupá-lo", brinca. Nesse momento o datacenter já tem alguns clientes importantes, como a RNP, a Globo.com e instituições de ensino, assim como o governo de Fortaleza (que recebeu parte da hospedagem de seus serviços como contrapartida pelo terreno). Mas a área e a infraestrutura do datacenter está programada para uma expansão de até quatro vezes o tamanho atual.
"Queremos que todas as empresas sejam nossas clientes, das pequenas às grandes operadoras e provedores e por isso apostamos em um datacenter Tier III neutro na cidade", diz ele. A região Nordeste tem poucas estruturas semelhantes à que foi montada pela Angola Cables, mas há pelo menos um concorrente importante: a Ascenty, que tem estrutura em Fortaleza. Pela proximidade do mar e por conta das temperaturas médias elevadas, a montagem de um datacenter desta natureza requer esforços técnicos adicionais para controle de temperatura, humidade e salinidade do ar, mas a proximidade das rotas submarinas, segundo Rui Faria, líder do projeto e agora diretor comercial para a África, compensa esse esforço adicional

Busca de incentivos
"Chegamos em 2015 com a promessa de dois cabos e um datacenter", disse Nunes na solenidade de inauguração, com a presença de autoridades como o Governador do Ceará, Camilo Santana; o Prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio; e o Ministro de Comunicações de Angola, José Carvalho da Rocha. Para António Nunes, se o projeto era "ter um ponto de desenvolvimento tecnológico", disse ele, ressaltando o empenho do setor público local na iniciativa, assim como o apoio do Banco de Desenvolvimento de Angola, que financiou os US$ 300 milhões investidos no projeto (entre a rede submarina e a construção do datacenter)."Fomos sonhadores e empreendedores. Hoje está criada a primeira ponte digital entre África e América Latina. Só foi possível com o apoio dos nossos acionistas e do Governo Angolano".
Não havia na solenidade nenhum representante do Governo Federal, "por uma questão de agenda", disse Nunes (este noticiário confirmou que foram feitos convites mas a agenda com as autoridades angolanas inviabilizou uma data com a presença do ministro brasileiro, ou representante). O CEO da Angola Cables, contudo, não escondeu que a Angola Cables contava com a política de incentivo a datacenters que havia sido sinalizada pelo governo Michel Temer e que foi desenhada pelo Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, mas nunca publicada. Segundo ele, a empresa continuará buscando estes incentivos, considerados importantes para o projeto.
Desde que a Angola Cables iniciou o projeto, em 2015, o mercado de cabos submarinos foi afetado por uma queda considerável de preços e a desaceleração económica também diminuiu o potencial de mercado no curto prazo, o que deve se reverter com a retomada económica (quando acontecer). Ainda assim, a empresa acredita que este ano terá a capacidade do datacenter plenamente ocupada.

Abril 2019

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