África sempre

2018-10-11
Fonte: Gonçalo Reis, Observador/ RTP

Este canal é um conceito próprio da RTP, sem paralelo no panorama internacional, oportunamente estabelecido no final dos anos noventa, quando ainda era possível lançar projetos desta envergadura.

Esta semana estivemos em Angola, fomentando o intercâmbio de conteúdos entre a RTP África e a televisão pública angolana e re-equipando a nossa delegação. Há poucos meses estivemos em Cabo Verde, a propósito da cimeira CPLP, realizando ações de formação não só na área da televisão mas também sobre rádio, um meio extraordinariamente popular em África, e ainda iniciando aí a distribuição da RTP3. No início de 2018 reunimos em Lisboa as cinco televisões dos PALOP a propósito dos vinte anos da RTP África, lançando a ambição de bolsas partilhadas de programas entre as televisões dos vários países e planeando ações de formação e partilha de conhecimento. A cooperação com África está cada vez mais no coração da nossa estratégia.
De todas as missões que a RTP desempenha, de todos os serviços que assegura, a projeção para África é valorizada sobretudo por quem conhece esta realidade no terreno, mas merece ser vista como uma das mais nobres tarefas do serviço público. Trata-se de uma presença com um alcance muito mais amplo do que as nossas fronteiras geográficas e com enorme valor estratégico para a afirmação de Portugal. E este canal é um conceito próprio da RTP, inovador, sem paralelo no panorama internacional de média, oportunamente estabelecido no final dos anos noventa, quando ainda era possível lançar projetos desta envergadura.
A verdade é que a RTP África não é um canal de “cá para lá”, de Portugal para África, mas antes um canal de África para África, com uma forte componente de conteúdos concebidos e realizados localmente, com a participação de profissionais que atuam no terreno. É uma plataforma gerida por uma instituição portuguesa, mas que funciona como um ponto de encontro entre os vários países africanos de língua portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Como tenho ouvido vezes sem conta, por parte de responsáveis empresariais, políticos e culturais africanos, é principalmente através da RTP África que as populações e as elites de cada um destes países acompanham a vida dos outros PALOP. Aliás, só a RTP tem delegações nos países africanos que falam a nossa língua. Por isso conseguimos produzir diariamente notícias, reportagens, programas de música e desporto e uma imensidão de histórias a partir dos vários países, tornando a RTP África numa praça central, num espaço de convívio comum deste conjunto de povos. Por outro lado, mais de metade dos conteúdos emitidos pela RTP África é produzida todos os dias especificamente para este canal, uma prática relativamente rara no padrão das ofertas internacionais.
Claro que daqui resulta um tema para reflexão: é que a RTP África, muitas vezes olhada de soslaio em Portugal, é provavelmente o canal da RTP com maior audiência (que não é quantificada porque tecnicamente não há condições para a sua medição). Mais uma prova de que a relevância do serviço público de média deve ser analisada num prisma mais vasto do que a mera competição pelos pontos de share das faixas comerciais do mercado nacional, tão disputadas, tão comentadas, tão impactantes na geração de receitas publicitárias, mas que não espelham o nosso horizonte.
Por tudo isto, tenho bem presente o ativo muito especial de que dispomos, a jóia rara que nos cabe cuidar. Comparando com os grandes operadores de média europeus que dispõem de canais internacionais desenhados na lógica tradicional de emissão de um determinado país para o mundo, penso muitas vezes: quanto não dariam essas potências para terem o seu canal africano, envolvendo os próprios países e populações locais, servindo não apenas como um espaço de afirmação mas também como um terreno de partilha, que seja não “dirigido a” mas “feito com”, que se posicione como exemplo de uma cultura de abertura, de respeito, de valorização da diversidade? Uma RTP África não é feita por quem quer, é feita por quem sabe e por quem pode. E só os portugueses conseguem realizar algo assim: um canal que é tão nosso por não ser apenas nosso; e que nos projeta para fora exatamente por saber conviver com outras comunidades.

Revista Meios e Publicidade premeia Gonçalo Reis e Nuno Artur Silva
O presidente da RTP recebeu o Prémio Personalidade Média do Ano nos Prémios Meios e Publicidade. O prémio a Gonçalo Reis foi partilhado com o ex-administrador da televisão pública, Nuno Artur Silva.
A revista Meios e Publicidade premeia todos os anos os melhores projetos de rádio, televisão, marketing e publicidade em Portugal.

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Setembro 2018

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