Angola Cables quer conectar Países BRICS

2018-07-12
Fonte: Pedro Ozores, BN Américas/ Angola Cables
Foto por: Angola Cables

Um projeto da Angola Cables poderá em breve começar a conectar os países do bloco de países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). “A rede da Angola Cables, incluindo o cabo de fibra ótica entre o Brasil e Angola, permitiria uma conexão imediata dos BRICS. De facto, estamos neste momento a falar com a parte sul-africana para promover a conectividade”, disse António Nunes, CEO do grupo angolano de telecomunicações, à BN Americas numa entrevista exclusiva.

O projeto ainda precisa de envolver outros atores e criar parcerias operacionais. Atualmente, os sistemas submarinos da Angola Cables, detidos diretamente ou em consórcio, concentram-se no Atlântico. Entre eles estão Monet, que conecta a Flórida (EUA) a Fortaleza e Santos (Brasil), e Maldonado (Uruguai), em parceria com o Google, Antel e Algar; e o Sistema de Cabo do Atlântico Sul (SACS), um projeto que liga a capital angolana Luanda a Fortaleza ao longo de uma linha de 6.200 km. O Monet está em funcionamento enquanto o SACS foi implementado, mas ainda está em testes, com a ativação prevista para o início de agosto. Nunes considera que a Angola Cables “é um agente ativo na viabilidade do projeto de interconetividade dos BRICS”. E é a aproveitar o SACS - a única rota direta da América Latina - que a empresa pretende chegar lá. Rotas de cabos submarinos da Angola Cables.
A partir de Luanda, o SACS conecta o WACS, o Sistema de Cabo da África Ocidental, uma rota de 14.530 km que vai de Yzerfontein, na África do Sul, a Londres. O WACS conecta 11 países com 14 pontos de desembarque, 12 dos quais ao longo da costa ocidental da África e dois (Portugal e Inglaterra) na Europa. A Angola Cables é apenas um dos 12 membros do consórcio que gere o WACS, mas é um dos seus maiores acionistas. Na África do Sul, porém, o SACS-WACS teria que “dar uma volta” nas rotas de outros sistemas que não são geridos pela Angola Cables para continuar a sua jornada no BRICS. Um deles é o sistema do Extremo Oriente da África do Sul (SAFE), um cabo de 13.500 km que liga Melkbosstrand, África do Sul até Penang, na Malásia, passando por Kochi, na Índia.
O SAFE é um consórcio de mais de 30 empresas, que não inclui a Angola Cables, mas inclui a Angola Telecom, administrada pelo Estado angolano. A Kochi, na Índia, é um ponto de desembarque para o sistema de cabos submarinos do Sudeste Asiático, Médio Oriente e Oeste (SeaMeWee3), o mais longo do mundo, com 39.000 km. Este conecta a Austrália, Alemanha e Coreia do Sul, e inclui pontos de desembarque em Xangai e Shantou, na China. O SeaMeWee3 é liderado pela France Telecom e China Telecom, e é gerido pela Singapore Singtel. O consórcio é formado por mais de 90 empresas, incluindo a Telefónica, a Telecom Argentina e a brasileira Embratel. O único excerto que falta na rota dos BRICS, portanto, seria a Rússia. Há apenas dois cabos submarinos que entram e saem da Rússia, e ambos conectam-se ao Japão. A conexão teria de ser feita em terra e via rádio russa Rostelecom, que opera o TEA (Transit Europe-Asia), uma rede de cabos terrestres que ligam a Hong Kong, Pequim e Xangai, entre outras cidades e países. A primeira vez que um projeto de rede de submarinos do BRICS foi mencionado foi em 2012. O plano original previa uma rede de mais de 34.000 km, ligando os BRICS aos EUA, que estaria pronta em 2014. A iniciativa, no entanto, nunca saiu do esboço. Em 2015, a Rússia pressionou pela interconexão. A iniciativa foi levantada pelos russos na reunião de cúpula do BRICS daquele ano, mas não chegou ao documento final do evento. Desta vez, as coisas poderiam ser diferentes e a rede BRICS poderia ser ainda maior. António Nunes diz que a Angola Cables está de olho no Chile e em outros mercados sul-americanos, que poderiam ligar-se indiretamente ao sistema BRICS. Para esse fim, o presidente eleito do Paraguai, Mario Abdo Benítez, reuniu-se com o presidente do Brasil, Michel Temer, no início deste mês para falar, entre outras coisas, sobre o acesso aos sistemas de cabeamento internacionais do submarino chegando ao Brasil através do Atlântico.

Junho 2018

 

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